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Fantástico usa aeronave com situação irregular em reportagem sobre queimadas na Amazônia

Álvaro Pereira Jr no Fantástico do último domingo (25): aeronave usada em reportagem estava em situação de risco (Reprodução/Globo)
Exibida no último domingo (28), uma reportagem do Fantástico, da Globo, sobre as queimadas na Floresta Amazônica colocou os repórteres da emissora carioca em situação de risco. É que a aeronave usada para sobrevoar alguns pontos da floresta pelo repórter Álvaro Pereira Jr não era autorizada pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) para transporte de passageiros.

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Segundo a denúncia recebida pelo Observatório da Televisão, tal aeronave usada é um Cessna, com prefixo PR-WMW. O reconhecimento do avião foi feito por fóruns privados de aviação na internet. A reportagem também consultou o site da ANAC e até esta quarta-feira (28), o Cessna PR-WMW continuava sem autorização para fazer táxi-aéreo (qualquer pessoa pode ver a situação da aeronave aqui).


Na reportagem, Álvaro Pereira Júnior usou o monomotor para voar entre Itaituba e Novo Progresso, ambas as cidades localizadas no estado do Pará. A intenção era mostrar os trechos mais desmatados da Amazônia, que ficam entre essas duas cidades. A reportagem resumiu a polêmica e foi a mais longa da edição do último fim de semana da revista eletrônica. Teve duração de 20 minutos.

Aeronave usada em reportagem da Globo está em situação irregular (Reprodução/Anac)
Mesmo que, eventualmente, não tenha tido conhecimento da irregularidade, a equipe do Fantástico esteve em risco. Em maio, por exemplo, o cantor Gabriel Diniz faleceu após a aeronave onde estava ter caído em Sergipe. O avião que o transportava até Maceió não tinha autorização para transportar passageiros e fazer o chamado taxi-aéreo.

Já em fevereiro deste ano, o jornalista Ricardo Boechat também faleceu após o helicóptero que o levada de Campinas (SP) até a sede da Band cair no Rodoanel, em São Paulo. O mesmo helicóptero também não tinha autorização para fazer o serviço que fazia.



Fantástico não sabia que a aeronave estava em situação irregular

O especialista em aeronaves Fernando Silveira, de Aracaju (SE), conversou com a reportagem do Observatório da Televisão e explicou que existem modos de saber se a aeronave está regular. “A Anac lançou um aplicativo recentemente para que o contratante cheque a questão. Além disso, também é possível ver em seu site”, disse Silveira.

Tal aplicativo é o VOE SEGURO, disponível para Android e iOS. O aplicativo diz na hora se a aeronave oferecida para transporte de passageiros está em situação regular. O lançamento fez parte de uma série de iniciativas da Anac para aumentar a fiscalização contra o táxi-aéreo irregular.

Atualmente, existe a estimativa da Abtaer (Associação Brasileira de Táxi-Aéreo) que de sete em cada dez voos de táxi-aéreo no Brasil sejam piratas. “Hoje, táxi-aéreo pirata é enquadrado como prática irregular, que dá de dois a cinco anos de prisão. Nunca vi ninguém ser preso por isso. O que acontece normalmente é cassação das licenças da aeronave e do piloto, além de multa”, explica Silveira.

Segundo apurou a reportagem do Observatório da Televisão, a produção do Fantástico não sabia que a aeronave usada por Álvaro Pereira Júnior estava em situação irregular. Também não houve checagem no momento em que a aeronave foi alugada.

Consultamos o advogado Yves Andrade, de Natal (RN), que no seu entendimento, afirmou que a Globo não pode ser responsabilizada pelo fato. Apenas o dono da aeronave poderá ser processado. No seu entender, a emissora carioca só poderia ter dor de cabeça caso algum acidente acontecesse.



Advogado diz que Globo só seria responsável se algo acontecesse aos repórteres

“A um primeiro olhar, não me parece que a Globo possa sofrer qualquer sanção por esse vôo ocorrido. As sanções administrativas são exclusivamente a quem é proprietário/responsável pelo avião. Mas se o avião caísse, eu veria a Globo como devedora de indenização a seus funcionários que ali estavam. Em resumo: o avião ter feito táxi aéreo sem estar autorizado para tanto é algo a ser punido administrativamente”, afirmou Andrade.

O Cessna PR-WMW está registrado na ANAC pela empresa Ferro e Aço Poconé LTDA. A reportagem tentou contato com a empresa. Mas não conseguiu resposta até o fechamento.

A reportagem também consultou oficialmente a Globo desde a última segunda-feira (26). Após a publicação da reportagem, a Comunicação da emissora enviou a seguinte nota. “O ‘Fantástico’ contratou os serviços da empresa Jotan Táxi Aéreo Ltda., que emitiu a respectiva nota fiscal. Se a empresa deixou de cumprir alguma exigência da regulamentação própria das suas atividades, o ‘Fantástico’ desconhecia tal fato”, disse a Globo.